Obturar falando feat. Cátia Cardoso


A poucas semanas de concluir com êxito mais uma etapa na vida de estudante, a convidada do “Obturar Falando” nasceu a 26 de Julho de 1997. Apaixonou-se por Coimbra, e em 2015 foi desafiada por três amigas para escrever um livro “Linhas delicadas” um romance com mais de duzentas páginas. Cátia Cardoso é também autora do livro “Poesia Silenciosa” e alimenta a sua paixão no blog “Cátia Cardoso”. Estuda Comunicação Social na ESEC – Escola Superior de Educação de Coimbra, colabora com Roda Viva Jornal de Arouca, escreve no “Repórter Sombra”. Ao longo das próximas linhas ficamos a conhecer um pouco mais da Cátia.


OF – Cátia, bem-vinda ao Obturador do Pensamento. Henrique Cymerman conta que o avô todos os dias não queria saber o que ele tinha aprendido, mas sim “que boa pergunta fizeste hoje...?”!? Que boa pergunta já fizeste hoje?
CC - Desde já, obrigada pelo convite. Questionar é, a meu ver, mais fácil que aprender, embora questionar também seja uma forma de aprender. Hoje, acordei e questionei a saudade. A primeira quinzena de maio é sempre muito emotiva para um estudante de Coimbra. Ontem foi a serenata e mais do que eu sentir que estava perto do fim, vi várias publicações nas redes sociais de pessoas mais velhas que estudaram cá e ainda recordam com carinho as suas serenatas e não deixam passar em branco este dia. Quando acordei e relembrei a noite passada, perguntei-me como será a saudade que terei daqui a dez, vinte anos.

OF - O primeiro prémio deste ano do World Press Photo foi recebido mal na comunidade e em particular no seu presidente. Qual achas que deve ser o papel do jornalista no século XXI? CC - O jornalista, neste momento, não é tão bem visto na sociedade como gostaria de ser. Porém, ainda existem bons jornalistas e bons fotojornalistas que, por vezes, passam até despercebidos. O jornalismo tende a produzir aquilo que mais vende, mesmo que isso não seja sinónimo de qualidade. Acho que o jornalista deve mostrar ao público as coisas como são, porém, sem se esquecer de respeitar o código deontológico. Títulos e fotografias que choquem serão sempre motivo de mais vendas. No caso da fotografia em questão, não foi certamente de ânimo leve que o seu autor a tirou. Existem muitas fotografias de cenários de guerra, bem piores. Isso chama-se fotojornalismo! Choca, muitas vezes, outras vezes vende bem. Se forem respeitados os princípios éticos e deontológicos, o jornalista deve continuar a fazer o seu trabalho, informar, mostrar, provar.
 
OF – Há uns meses atrás publicaste um post no facebook em que leste que era importante ter uma biblioteca com tantos livros lidos como por ler. Quando começou o gosto pela leitura?

CC - Não me lembro de não gostar de ler. Aliás, ainda antes de saber ler eu já gostava de livros. Já tinha “O Patinho Feio” e outros contos. Depois que aprendi a ler, alegrava-me sempre que me ofereciam livros. Até que comecei eu a escolher os livros que queria comprar e hoje, apesar de não ter tanto tempo quanto gostaria para ler, continuo a fascinar-me sempre que entro numa livraria. E também por isso não resisto a algumas compras. Antes, comprava um livro e enquanto não o lesse não iria ler outro. Agora, não tenho esse receio, pois sei que mais cedo ou mais tarde irei ler todos os livros que tenho, embora saiba que, nesse dia, também já terei comprado mais que ainda não estarão lidos e assim sucessivamente.



OF – Quando acedemos ao teu cantinho está escrito “Acredito que cada pessoa no mundo tenha uma missão na vida e a minha passa por escrever...”. A paixão pela escrita nasceu por acaso? Quais foram as primeiras palavras que escreveste?
CC - Não acredito que tenha sido um acaso. Não costumo acreditar no destino, mas efetivamente sinto que tenho esta missão, a de comunicar, a de escrever. As primeiras palavras foram-me ensinadas pela minha avó – com quem ficava até ir para a escola, nunca frequentei a pré -  e foram os graus de parentesco: mãe, pai, avó e, provavelmente, o meu nome.


OF – Arouca esteve nas bocas do mundo pelo caso mediático Pedro Dias. Foi bom ou mau para a região? 
CC - Não creio que tenha sido bom, pois não trouxe nada de benéfico para o concelho nem para a vila. Contudo, não creio também que tenha sido prejudicial. Arouca continua a ser conhecida pelas suas paisagens emblemáticas e continua a ser cobiçada e visitada com a mesma abundância. Além disso, esse caso mediático – que acaba por já estar esquecido – em nada alterou a forma das pessoas de fora olharem para Arouca.


OF - Quem são as tuas maiores referências no jornalismo escrito? E na telefonia / televisão? 
CC - Não costumo ter referências, costumo dizer que quero ser a minha própria referência, sem seguir/imitar ninguém. Contudo, existem sempre pessoas que admiro como o José Vítor Malheiros ou o João Fernando Ramos. Pois são profissionais que se destacam pela qualidade dos seus trabalhos e na comunicação social nem todos são bons profissionais, aliás, poucos, diria até, o são, infelizmente.



OF - Se Coimbra fosse uma canção qual seria o seu ritmo? 
CC - Sem dúvida, um fado. Uma balada, de preferência, para ouvir de capa traçada. 

OF - De que vais ter mais saudades quando terminares o teu percurso em Coimbra? 
CC - Do envergar capa e batina, do ouvir baladas de capa traçada, das serenatas e das noites de Queima e Latada. Da tradição coimbrã, no fundo, e de todos os momentos especiais que aqui vivi. Coimbra é uma cidade única e aquele lema do “só quem a vive a sente” não podia ser mais verdadeiro.



OF - A família é fundamental para o teu crescimento?
CC - Sim. Em tudo. É sempre importante a presença e apoio da família em todas as etapas das nossas vidas. Sozinhos sentimo-nos sempre mais pequenos. 



OF – Como cronista / colaboradora estás “obrigada” a escrever semanalmente. Quais são os truques quando se está bloqueado?
CC - Neste momento, escrevo mensalmente para um jornal e quinzenalmente para um site. Não é fácil. Até porque às vezes tenho tema, outras não. Às vezes ando três semanas a pensar no que escrever e só no dia anterior é que me lembro de algo. Até agora, tem corrido bem. Depois de começar a escrever as ideias costumam fluir, o pior é mesmo o começar, esse começo é que, por vezes, se tem que forçar. Mas na ausência de inspiração o único truque é mesmo pensar, pesquisar, sentar-me em frente ao computador nem que fique uma hora a olhar para ele. Entretanto, lá surge a primeira frase.

OF – A escrita criativa ficou conhecida pelos cursos dados pelo Chagas Freitas. Qual é a tua opinião sobre o trabalho dele. Leste o último “Prometo perder”?
CC - Passa-me completamente ao lado. Eu gosto de bons livros e tendo a ignorar o comercial. Só li o “Prometo Falhar” e foi o livro que mais me custou ler em toda a vida, fi-lo apenas para confirmar aquilo que já pensava: uma escrita banal com o objetivo único de vender. Não consegui sentir nada com o livro e, para mim, um livro tem de passar emoções. Um verdadeiro escritor escreve tanto com o coração como com a mente.

OF – Se nos encontrarmos daqui a dez anos o que imaginas estar a fazer?
CC - Ora bem, daqui a dez anos eu terei quase 30. Não sei exatamente o que estarei a fazer, mas certamente estarei numa etapa da minha vida bastante diferente desta. Espero estar a trabalhar em algo que goste, na área da comunicação, de preferência, seja jornalismo, cinema ou algo que até possa ainda não me ter passado em ideia.

OF – O que é para ti mais difícil: distanciares-te de um tema ou vivê-lo de forma intensa?
CC - Vivê-lo de forma intensa pode ser difícil, muito difícil. E claro que depende do tema, mas, ainda assim, creio que prefiro vivê-lo, custe o que custar. Eu gosto de viver intensamente os momentos, portanto… Acho que é a resposta que faz sentido a esta pergunta.




OF – A sensação que tiveste quando o “Linhas delicadas” te chegou às mãos?
Uma sensação enorme de realização. Foi um objetivo cumprido. E claro que também me senti orgulhosa desse feito meu.

OF – Agora um desafio que terás de responder com apenas numa palavra / verbo:
CC
Arouca – Casa
Jornalismo – Fascínio
Literatura – Arte
Fotografia – Inspiração
Amor - Jorge
Coimbra – Saudade

OF – Obrigado por esta conversa.    




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